
Vii em um site e gostei da história desse homem.. muito boa leiam
Desde jovem eu gostava de perguntar às pessoas quais eram os sonhos delas. Gostava de perguntar para crianças, para adolescentes e para adultos. Crianças respondiam normalmente que queriam ser como os pais, os adolescentes costumavam me dizer que queriam ser o oposto dos pais e os adultos... Bom, muitos já tinham parado de sonhar.
Quando essa mania surgiu eu já não lembro mais, mas lembro que quando eu era apenas um garoto eu já perguntava isso.
Tenho uma vaga memória sobre uma redação da escola... "O Que Eu Serei Quando Crescer"... Creio que foi aí que comecei a questionar os outros e a mim mesmo a respeito disso. Não sabia o que escrever na redação. Acho que eu era o único a não ter sonho nenhum. Ouvi crianças dizendo que queriam ser professoras, médicos, enfermeiras, dentistas, veterinários, astronautas... Perguntei ao meu amiguinho do lado e ele disse que queria ser piloto. Piloto... Gostei do sonho. Minha redação? Eu disse que seria piloto também.
Cheguei em casa e fui logo perguntando pro irmão o que ele queria ser. "Vou ter uma fazenda e criar cavalo", foi o que ele disse. No mesmo dia eu pedi uma fazenda pro pai.
E assim fui ficando. Ladrão de sonhos. Se não tinho meu próprio, o que custa os outros compartilharem os deles comigo? Eu queria algo, só não sabia o que era e nem a onde estava.
Ouvi um dia minha prima dizendo que queria ir pra faculdade. Fui também. Ela fez letras em inglês e eu em espanhol. Nunca gostei. Desisti no segundo período. O pai me mandou trabalhar e logo peguei gosto pelos negócios. Virei empresário. Micro-empresário. A idéia surgiu quando um amigo meu abriu uma empresa. A essas alturas eu já era ladrão especialista.
Nunca fui rico e ainda não sou. Agora tenho 40 anos, parei com os roubos. Como disse no início, os adultos costumam parar de sonhar. É difícil roubar o que já não existe mais, mas continuei tentando, sempre perguntando o sonho dos outros, as vezes pego pra mim, hoje em dia quase não pego mais.
Um dia desses algo me chamou muita atenção. Estava na estação do metrô e ao meu lado sentou uma garota de uns 16 anos. Tinha uma mochila enorme e uns livros nas mãos, cara de cansada, coitada. O metrô atrasou esse dia, parece que ela ia chegar atrasada, resolvi puxar conversa:
- Estudante?
Ela fez que sim.
- Vestibular?
Outro sinal de sim. A garota olhava para um ponto qualquer no chão, parecia que queria dormir, não tive certeza.
- E você já sabe o que quer ser?
- Sim. Vou fazer medicina.
- Percebi na hora que te vi - ela sorriu sem olhar para mim - E esse é o seu sonho?
Ela ficou estática olhando para o chão imóvel. Depois de um segundos, respondeu sem o menor tom de emoção:
- Ah, senhor. Meu sonho é inviável hoje em dia.
- Tem medo de não conseguir ser médica?
- Não.
- Então esse não é seu sonho não é? Que mal lhe pergunte, mas fiquei curioso, qual seria então?
- Não passar tudo isso todos os dias... Ter tempo de sorrir, de ser feliz e não precisar me esconder em livros o dia todo... Queria ter nascido umas décadas atrás para ter tempo de amar, conversar, sonhar... Ter tempo de um dia casar, ter filhos... Ter uma família... Família. O senhor tem família?
- Tenho sim. Esposa e filhos.
Ela continuava parada olhando para o chão sem qualquer tipo de expressão. Esse foi o sonho mais interessante e sem sentido que eu já tinha ouvido em toda a vida. Nem quis roubar esse, era algo que eu já tinha. O que ela queria afinal?
- E por que esse sonho é inviável hoje em dia? - perguntei.
Ela me olhou finalmente e disse:
- Quantas pessoas, da minha idade, o senhor conhece que têm uma família?
Eu estranhei a pergunta, mas aí o metrô chegou, ela levantou e me disse tchau sem que eu pudesse dizer nada. E então ela me deu o sorriso mais triste que eu já vi na vida.
Quantas pessoas...? Bom, meus filhos têm quase a idade dela, e sabe... eu nunca perguntei quais eram os sonhos deles.
O que eu fiz? Meu último roubo.
Bom de roubar sonhos é que você não leva necessariamente o sonho do outro, você pode apenas tirar uma cópia dele.












